terça-feira, 7 de julho de 2009

Cantigas Infantis: Marré Desci

Bem, após uns dias enclausurada por conta de um trabalho de faculdade, volto para falar de uma coisa que tem me intrigado: as cantigas infantis.

Quando a gente é criança, não está nem ai para o que canta, nem tem a dimensão do que estamos falando. Mas quando ficamos adultos e começamos a implicar com tudo, eis que as cantigas caem na malha fina, rs.

A cantiga a seguir, causa-me espanto agora, embora, deva confessar que não era uma das minhas preferidas quando criança. Vamos a ela então:


Marré Desci

Composição: Indisponível

Pobre:
Eu sou pobre, pobre, pobre
De marré, marré, marré
Eu sou pobre, porbre, pobre
De marré desci

Rica:
Eu sou rica, rica, rica
De marré, marré, marré
Eu sou rica, rica, rica
De marré desci

Rica:
Quero uma de suas vossas filhas
De marré, marré, marré
Quero uma de vossas filhas, de marré desci

Pobre:
Escolhei a que quiser
De marré, marré, marré
Escolhei a que quiser, de marré desci

Rica:
Eu sou quero a "Maria"
De marré, marré, marré
Eu sou quero a "Maria", de marré desci

Pobre:
Eu de pobre fiquei rica
De marré, marré, marré
Eu de pobre fiquei rica, de marré desci

Primeiro, nunca entendi esse título. Mas vá lá, deve ter sido concebido por conta da brincadeira sonora. Como não sei a origem desta cantiga, pode ser ainda que o título nem era esse, mas com o passar do tempo - como aconteceu com "espalha rama" = "esparrama" de outra cantiga ("batatinha quando nasce esparrama" pelo chão) - tenha sido transformado pelo uso.

Como podem perceber, retrata um diálogo entre a "rica" e a "pobre". Desde criança avivando as diferenças sociais - este é o nosso mundo, não é mesmo?
Mas isso não é o principal, não é a parte chocante desta música inocente. Se lerem com um pouco de cuidado, logo vão notar que a partir da 3ª estrofe, a música fica bem interessante.

A "rica" diz querer uma das filhas da "pobre". Em seguida, a "pobre" pede que escolha a que quiser e a "rica" diz que só quer a Maria. Pensando em cantiga de criança, se parasse por aí até que não estaria ruim, já que em muitas delas há a escolha de uma criança e assim suscetivelmente, até restar só uma na brincadeira. (isso por si só já é bem cruel, rs, mas as crianças são cruéis, rs).

Porém, o que espanta é a última estrofe, com a fala da "pobre", informando que ficou rica.

Bem, de maneira racional, juntando as informações obtidas até agora, a cantiga sugere que a "pobre" com a maior naturalidade do mundo vendeu a filha para a rica? ou é só imaginação da minha parte?

Repito mais uma vez que a intenção não é a de maldar a tradicionalíssima cantiga, só a entendê-la.

E literalmente não é isso o que sugere? Os mais cri-cris vão se perguntar ainda: e para quê a "rica" quer a filha da "pobre"? Bem, aí já não me atrevo a sugerir nada, já que literalmente não temos outros indícios.

Mas já é matéria para se meditar. Espero ouvir o que acham. Gostando ou não do que foi dito aqui. Beijos.

Um comentário:

  1. Legal...nunca parei para pensar nesta cantiga desse jeito... parabéns

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